Orley José da Silva, é professor universitário em Goiânia, mestrando em linguÃstica/UFG e evangelista da Assembléia de Deus A Rede Globo de Televisão dedicou pela primeira vez, no dia 18 do mês passado, um programa inteiro de conteúdo evangélico. A transmissão do Festival Promessas ocupou 75 minutos de sua programação vespertina e alcançou 13 pontos de audiência, quase o dobro do IBOPE de sete pontos obtidos pela emissora no mesmo horário do domingo anterior. As opiniões favoráveis e contrárias ao Festival circulam dentro da própria Globo e também entre os evangélicos. O evento que reuniu nove nomes da música gospel foi gravado na tarde e noite do dia 10 de dezembro último, no Aterro do Flamengo, e teve um custo de R$ 2,9 milhões à prefeitura do Rio de Janeiro.
A organização do show mostrou-se decepcionada com o público de aproximadamente 20 mil pessoas porque esperava lotar o espaço que comporta mais de 200 mil. Como precisava de boas imagens para a TV, a equipe de produção tratou de aproximar a platéia do palco para dar a impressão de massa compacta e reajustou o posicionamento das câmeras.
Os rumores que creditam o fracasso de público à baixa popularidade dos cantores, não se sustentam. Em condições normais e através de divulgação “igrejeira”, a cantora Ana Paula Valadão, do Diante do Trono, sozinha, é capaz de tornar pequeno o espaço do Aterro do Flamengo. A chuva que caiu sobre o Rio naquela tarde afastou muita gente. Algumas outras possíveis explicações também podem ser levantadas. Uma delas é que os organizadores globais acreditaram que poderiam atrair o público gospel com o mesmo formato de promoção dos shows seculares. Portanto, confiaram na força de convencimento da mídia e menosprezaram o poder de (des) mobilização das igrejas.
Outra explicação possível é que, mesmo sendo uma operadora da comunicação, a Globo não teve o cuidado de adequar a mensagem e a linguagem utilizadas no texto das chamadas ao público almejado. A mensagem convida para um ajuntamento, sem que para isso estabeleça um claro objetivo espiritual. A linguagem traz palavras seculares como “fã” e “ídolo” para tratar do relacionamento dos crentes com os cantores, sendo que os princípios doutrinários dos protestantes rejeitam, veementemente, a posição de “fã” e consideram a “idolatria” uma abominação.
Pode ter ajudado também nesse fiasco de público a ausência de um(a)apresentador(a), reconhecidamente evangélico(a), que emprestasse credibilidade e intimidade às participações. Com o Serginho Groisman nessa função, (alguém que não é reconhecido pelo grupo como um “irmão” que professa a mesma fé) o público percebeu que não se tratava de um culto completo, genuinamente cristão, de louvor e adoração a Deus, como esperavam e gostariam que fosse.
A resistência em não participar da festa, porém, pode ter razão na desconfiança de boa parte dos evangélicos acerca dessa repentina aproximação da TV Globo, porque eles trazem na memória as marcas das hostilidades causadas pela emissora. Lembram, por exemplo, de como foram desdenhados e caricaturados em novelas, humorísticos e minisséries, além do sofrimento com difamação, injúria e depreciação da fé deles em reportagens e documentários.
A decisão de aproximar-se dos Reformados faz parte de um conjunto de medidas que visa melhorar a audiência da emissora junto à nova classe média e o consequente acréscimo do faturamento. Esse novo direcionamento resulta de pesquisas encomendadas sobre os anseios do telespectador e de uma leitura cuidadosa do atual cenário econômico e social do país. Estudos acadêmicos recentes e informações atualizadas do IBGE apontam, por exemplo, para uma forte e crescente presença evangélica na composição da nova classe média. Dessa forma, apesar de contar com apenas 20% da população brasileira, de acordo com o Novo Mapa das Religiões publicado neste ano pela Fundação Getúlio Vargas, é possível observar sinais de que esse segmento religioso já consegue influenciar a moral, a ética, a política, a cultura, a literatura, as artes, os costumes e a natureza do consumo nos seus espaços sociais.
Atenta à nova configuração social, a emissora procura adequar-se ao novo momento. As mudanças ocorrem na grade da programação e na filosofia que direciona suas escolhas discursivas. A tendência, inclusive, é continuar com a mesma política de promoção de temas relacionados ao catolicismo romano e também ao espiritismo em sua programação. Por outro lado, deve abrir espaço na grade aos evangélicos e, logicamente, dispensar-lhes melhor tratamento e consideração. Isso inclui o uso do bom senso em pontuar ou particularizar as críticas aos escândalos que surgirem no meio protestante, tendo o cuidado de preservar o restante do grupo.
A parceria entre os antigos desafetos vai sendo aos poucos viabilizada, iniciando-se pela música. Não será estranho, no futuro, pastores ministrarem pela tela da Globo. Cooperam para isso, a recusa da Rede Record em abrir espaço para as igrejas em sua grade, e a sua preferência por uma programação secularizada. Interessada em explorar o ainda insipiente e semiprofissional mercado da música gospel, que rende cerca de R$ 2 bilhões por ano, a Gravadora Som Livre, empresa das organizações Globo, criou a sua divisão “gospel” e contrata cantores que se destacam nesse meio. Animada com a audiência do Festival e com a grande circulação de mensagens e vídeos relacionados ao tema nas redes sociais, a emissora já prepara mais três edições do evento para 2012 e estuda a criação de um programa musical gospel para as tardes de sábado.
Essa até recentemente impensável aproximação encontra resistências dentro da própria TV Globo e também entre os protestantes. O grupo ainda ligado ideologicamente ao ex-diretor José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o “Boni”, não concorda com as mudanças que estão sendo implementadas na filosofia da programação já cristalizada e consagrada pela emissora. Do lado protestante, as vozes mais desconfiadas procedem principalmente das igrejas tradicionais ou “históricas” e de alguns de seus seminários teológicos. Essas vozes alertam para o perigo de se misturar o santo com o profano; os interesses do Reino de Deus com os interesses do mercado, o que pode resultar em descaracterização ou diluição da mensagem do Evangelho.
Representando o discurso evangélico favorável ao acordo, o pastor Silas Malafaia, principal articulador do Festival junto à diretoria da Globo, escreveu em sua conta no Twitter que os crentes não são ingênuos quanto aos interesses comerciais da emissora. Por outro lado, consideram a importância do espaço na maior rede de televisão do país para a divulgação da palavra de Deus através da música. Além do mais, acreditam que essa oportunidade é em decorrência de resposta às orações de muitos, para que um número cada vez maior de pessoas conheça a mensagem de salvação em Jesus, o Cristo. Resumindo esse pensamento e expressando a natureza dos interesses envolvidos, o jovem pastor Junior Souza afirma em seu blog que “a Globo usa os evangélicos para ganhar audiência e nós usamos a Globo para pregar o Evangelho”.
(Orley José da Silva, é professor universitário em Goiânia, mestrando em linguística/UFG e evangelista da Assembléia de Deus do bairro de Campinas. E-mail: proforleyjose@gmail.com)





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