Gajendra, o elefante, foi pego por um crocodilo. Ele era um elefante de ego muitíssimo forte e estava convencido de que poderia lutar e se livrar do crocodilo com sua grande força. Mas, os elefantes são muito poderosos na terra; os crocodilos são muito poderosos na água.
Quando um elefante entra na água, ele não tem tanta força assim; e, quando um crocodilo vem para a terra, ele também se torna menos poderoso do que na água.
Como o crocodilo estava na água, ele podia exercer todo o seu grande poder. Mas o elefante, Gajendra, era muito arrogante; e acreditou que crocodilo algum jamais poderia se equiparar a um elefante, que era o senhor da floresta.
Ele não sabia que um crocodilo na água seria mais poderoso do que qualquer elefante fora da terra.
Por muito tempo, eles lutaram implacavelmente. Então, Gajendra, o elefante, cansou e perdeu toda a sua força física e mental, que tanto confiava; no entanto, tendo esgotado essas forças, Gajendra orou pedindo ajuda a força espiritual, denominada Deus.
Como a visão dele tinha sido dirigida ao corpo, ele não olhava em direção ao espírito. Enquanto tinha confiança em sua própria força física e mental, o espírito não lhe favorecia.
Quando o elefante perdeu sua força física e mental voltou-se ao espírito, Deus, imediatamente, o Senhor Vishnu arremessou Seu disco sagrado e livrou Gajendra da catástrofe que o tinha surpreendido.
O disco não é uma simples arma; mas uma graça.
Podemos também analisar essa história comparando-a com a vida do pai de família, que vive em busca do sustento no rio do cotidiano, no trabalho, onde é mordido no pé pelo terrível crocodilo das contas e infinitos problemas que lhe afligem a vida, não sendo-lhe suficiente a força física e mental para superá-los. Enquanto mantém-se a confiança na própria força física e mental, o espírito não favorece com a sabedoria necessária para se libertar.
(Comentário sobre a História de Gajendra do livro Srimad Bhagavatam).
F. Aldebaran
(Escritor)

O Sr. Luíz Pángaro Neto, poeta cantador, comentou que lia meus textos que são publicados nos diários locais. No decorrer de nossa conversa o Sr. Luíz me fez um pedido, disse que gostaria que eu escrevesse sobre Jesus Cristo.
Afirmei que iria escrever. Ele desejou: - que Deus lhe abençoe com muita inspiração. Então, comecei pensar sobre o tema "Jesus Cristo". Comecei uma investigação minuciosa, não como um pesquisador, mas como uma "criancinha".
E comecei a caminhar, e vi um culto em uma igreja e pensei em entrar lá e perguntar ao pastor sobre Jesus, no entanto, o barulho era terrível, eles gritavam e se agitavam como loucos, desisti e fui até uma catedral a fim de perguntar ao padre, mas ele estava preocupado com as causas políticas.
Lembrei de uma passagem bíblica que diz: "Porque temos uma pugna, não contra sangue e carne, mas contra os governos, contra as autoridades, contra os governantes mundiais desta escuridão, contra as forças espirituais iníquas nos lugares celestiais" – Efésios 6:12.
Jesus se afastou até mesmo de seus apóstolos e foi "solitariamente e em silêncio" fazer uma oração ao Pai, no monte das oliveiras. Está escrito em Mateus 6: 5 -7: "Também, quando orardes, não deveis ser como os hipócritas; porque eles gostam de orar em pé nas sinagogas e nas esquinas das ruas largas, para serem vistos pelos homens. Deveras, eu vos digo, eles já têm plenamente a sua recompensa. Tu porém, quando orares, entra no teu quarto particular, e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está em secreto; então o teu Pai, que olha em secreto, te pagará de volta. Mas, ao orares, não digas as mesmas coisas vez após vez, assim como fazem os das nações, pois imaginam que serão ouvidos por usarem de muitas palavras".
Desisti das igrejas e dos programas religiosos que passam na TV, pois segundo o que li na Bíblia, "não é religião que salva", e fui ao centro da cidade onde vi muitos piscas-piscas, adesivos, crucifixos a preço de banana, e pessoas vestidas em roupas estampadas com os dizeres: "O Senhor é isso, o Senhor é aquilo", vi papais-noéis e imagens de Jesus por toda parte, como se Ele fosse um "pop-star" na agitação do comércio neste período do ano, tornando-se líder de vendas.
Segundo o próprio Jesus no livro de Mateus 7: 21 - 23: "Nem todo o que me disser: "Senhor, Senhor, entrará no reino dos céus, senão aquele que fizer a vontade de meu Pai, que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome e não expulsamos demônios em teu nome, e não fizemos muitas obras poderosas em teu nome? Contudo, Eu lhes confessarei então: Nunca vos conheci! Afastai-vos de mim, vós obreiros do que é contra lei".
Em outra passagem Jesus disse: "Parai de fazer da casa de meu Pai uma casa de comércio", então, imaginei, se Jesus disse isso no Templo de adoração, já pensou a tristeza dele ao ver o seu nome e o nome de seu Pai utilizados como estampas para render lucros no fim de ano?
Talvez, Ele diria novamente: "Meu reino não faz parte deste mundo".
Na minha caminhada pensei em perguntar a um amigo intelectual, algum amigo escritor ou acadêmico da universidade sobre Jesus Cristo, mas logo me veio a lembrança uma outra passagem do livro de Mateus 11: 25: "Ó, Pai, Senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas dos sábios e dos intelectuais, e as revelastes aos pequeninos".
Sem conseguir uma resposta satisfatória fui à beira do rio, e perguntei ao Tocantins que mensagem Jesus quis passar, o rio me respondeu: "nada!". Nadei e mergulhei fundo.
Passei o fim de semana em comunhão com a natureza e com o pensamento de que tinha que escrever sobre Jesus Cristo. Eu lembrei de algo que havia lido sobre a civilização e o progresso, que nem sempre são índices de felicidade. Em nenhuma nação altamente desenvolvida há homens mais felizes do que nos povos chamados primitivos. No setor religioso fala-se na necessidade de cristianizar os povos pagãos, como se os cristãos fossem melhores e mais felizes do que os não-cristãos. Nenhuma parcela da humanidade cometeu maiores crimes e monstruosidades do que a cristã.
O que eu poderia saber sobre Jesus Cristo? Jesus, o Cristo, foi humilde, uma prova de que não é condição financeira e nem o tipo de trabalho que fazemos que determine o valor de nosso Ser. Pois é tão difícil para o sábio adquirir riquezas, como é difícil para o rico adquirir sabedoria.
Eu já estava sentindo a resposta satisfatória para escrever. Quem foi Jesus Cristo e o que ele quis transmitir. Nesse momento ouvi uma voz dentro da minha cabeça dizer: "Ao invés de falar sobre Jesus Cristo, siga o seu exemplo. Ao invés de pendurar uma cruz em seu pescoço carregue a sua própria cruz". Era a minha consciência. Jesus Cristo! Agora entendo porque se perguntava até quando iria continuar vivendo junto com esta humanidade sem fé. Junto com estes que não sabem o que dizem e nem o que fazem. Pois o homem não vê a Cristo e a Deus como Eles realmente são, mas sim, como o homem é. Muitos acreditam que morreu para livrá-los do pecado, e por isso, não precisam fazer nada de bom na vida, quando na verdade, o Senhor veio para dar o exemplo de como viver neste mundo.
O mundo empírico dos sentidos e o mundo analítico da inteligência não atingem a magnitude de Cristo, que só pode ser conscientizada pela intuição da razão espiritual. A loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força dos homens. Ao meu amigo Sr. Luíz Pángaro Neto, o meu texto, sobre a minha concepção a respeito de Jesus Cristo, o homem mais humano que já viveu.
(Dedico esse texto a todos que fazem de suas próprias vidas uma constante oração).
F. Aldebaran
(Escritor)

Numa noite de novembro, aquele homem levantou-se assustado com a terrível palpitação do seu coração fálico. As mãos dele suavam muito, o corpo dele tremia, e a respiração dele estava ofegante, sentia uma sensação de náusea. Cedia aos desejos sem vontade.
Ele tinha a vida repleta de cobranças; no trabalho, na família, nas relações sociais...
Aquele homem sabia que aquela mulher não estava ao seu lado, e o corpo dele estava ali, mas os seus sentimentos de afeto não. Todos que passavam o viam sozinho, olhando para o céu, desejando aquele beijo prometido que seria dado no outro lado da ponte.
Mas de repente, ele foi acometido por uma sensação ainda mais desegradável, o homem disse:
– Tenho tanto a fazer e gostaria apenas de dormir ou brincar com o meu gato de estimação. O problema é que a cada dia estou mais cheio de tarefas, compromissos, pendências, muitas coisas a fazer.
Sufocado ao ar livre, dançando no silêncio com a mulher fantasmagórica, pensou, como conciliar tudo isso com a vida natural de ser humano? Mas qual seria o limite?
E ouviu a fantasma na forma esquelética num vestido rodado, armado por anáguas engomadas responder: – O limite seria a minha vulva, mas ela foi saboreada pelos vermes a sete palmos do chão. Não há.
– Estou cada vez mais comandado pelas pressões externas, subjugado pelas imposições e raras vezes penso por mim. Não reflito sobre o que realmente me interessa. O corpo não suporta tanta pressão e adoece. Estou muito doente – disse o homem num sorriso disfarçado.
A vida nesse mundo globalizado deveria ser mais tranquila, ele sussurrou no ouvido surdo, olhando para metade da lua que brilhava no céu.
– Quando nascer o dia, eu vou aprender o que quiser e o que eu puder, e no meu ritmo, sem forçar a minha natureza, e vou trabalhar quando quiser e no limite de minhas forças tentando fazer o melhor que puder, mas sem a obrigação de provar nada a ninguém. Estarei no comando da minha própria vida, estarei bem se eu estiver em paz, a paz vai gerar saúde no meu corpo – disse o homem desamparado.
– Um beijo. É isso que eu quero. Para quê quero realmente isso?! Não posso me envolver no turbilhão do mundo, de maneira que o mundo me vista em roupas de grifes e me arraste para o seu olho – disse tentando persuadir a coisa estranha.
Aos poucos, antes de desaparecer, ele ainda pediu: – por favor, você pode beijar a minha boca?
E ouviu a resposta: – beije-me, mas sem tocar os meus lábios.
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F. Aldebaran
(Escritor)
F. Aldebaran
(Escritor)
Donatien era um homem sádico, e milionário, o que justifica as suas neuroses e o absolve de qualquer condenação, seja dos homens ou dos deuses.
Cuidadosamente, ele planejou o seu casamento.
Ele se dizia: ─ A minha mulher deverá ser minha de corpo e alma. Ela não deverá sentir esses desejos que essas mulheres mundanas sentem. Deverá ser muito pura e casta. A partir desses devaneios, ele profanou a sabedoria do Alcorão, e aderiu a um falso Islã, desrespeitando Alá. Com este disfarce, de homem devoto, ele viajou até a Tanzânia para arranjar uma noiva, muito jovem, que seria preparada para ele. Após pagar o dote, Donatien conseguiu realizar o seu grande desejo, que era participar de uma cerimônia de circuncisão feminina. Ele viu a mãe levando a jovem virgem escolhida para cima de uma pedra, e retirando-lhe em seguida, a veste íntima. Ele observou sentindo muita excitação.
Enquanto uma velha desdentada vestida em trapos sujos como a ignorância da ancestralidade desenrolava um pano onde havia guardado um objeto afiado e alguns espinhos e um rolo de linha preta.
Dois homens e a mãe da noiva a pressionaram contra a pedra e abriram as pernas dela a força. A velha se agachou empunhando a lâmina brilhante numa mão e um espinho grosso na outra, ela disse: ─ hoje é o dia em que você se tornará uma mulher decente. A velha continuou entusiasmando a noiva pela cerimônia, dizendo que o que ela desejasse seria concedido.
Com o espinho ela levantou os lábios da vulva a fim de facilitar o corte. Primeiro ela cortou os lábios menores e em seguida o clitóris. Uma circuncisão de quarto grau, infibulação.
O sangue escorreu por toda parte.
A noiva se agitou, e Donatien, o noivo, ofereceu-se para segurá-la. Barbaramente, como se castra um animal, todos se empenharam na obra da fé.
A noiva ficou coberta de suor. A velha jogou um líquido leitoso sobre os cortes, na tentativa de prevenir infecções. A mãe da noiva pediu para a velha cortar mais ─ pois Deus necessitaria do sofrimento advindo de severas austeridades e penitências, ela disse.
A flor nubente foi podada sem piedade.
Os gritos da noiva eram como orações para Donatien, que se sentia muito recompensado por ter passado um mês em jejum no Ramadã, e pelas constantes orações que fez três vezes ao dia no masjid.
O trabalho havia sido concluído. Finalmente, uma mulher castrada.
O corte foi fechado com espinhos. Apenas uma pequena abertura foi deixada.
Um pedaço de palha foi inserido no pequeno orifício para impedir que ele se fechasse. Em seguida, as pernas dela foram amarradas juntas com uma corda para que o corte cicatrizasse.
Não importaria os problemas físicos e mentais que seriam frequentes àquela desafortunada mulher, Donatien tinha mesmo a garantia da virgindade, uma mulher sempre dócil.
É certo, que para muitos homens a existência do clitóris pode ser um perigo ao falo.
Após muitos sangramentos, aconteceu o casamento. Donatien sorriu feliz ao lado da noiva fiel.
Nas núpcias, ele usou uma navalha para abrí-la, como um pacote, e se deleitou no mel, ou melhor, num rio de sangue. E toda vez que Donatien, o marido, viajava, ele realizava a infibulação antes, e quando retornava ele rasgava os pontos com uma navalha e abria o seu pacote de gozar.
Assim, ele sempre se deleitava com as dores que a esposa sentia durante as relações. A esposa pura, sempre acometida de infecções, sobreviveu até o dia em que a morte benevolente resolveu levá-la deste mundo perversamente fálico.
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F. Aldebaran
(Escritor)

Desde quando Ofélia sofrera um aborto, Manoel observou que a esposa havia se tornado uma mulher muito triste. Quiçá, como forma de compensação, ela decidiu comprar um quadro de Giovanni Bragolin.
O quadro, com a imagem de um menino chorando no escuro, como se estivesse a encarar o observador.
Ofélia se trancava num quarto e passava horas contemplando o quadro.
Numa noite, sem que a esposa soubesse, o marido foi ao quarto reservado enquanto ela dormia. Ele não entendia nada sobre artes plásticas, mas foi observar o quadro para tentar entender o fascínio da esposa.
Manoel pode ver no quadro, na parte escura, que o menino não tinha um olho, ele se aproximou da tela e viu que a beirada do olho do menino era murcha. Que horror! – Exclamou o marido terrificado. Que logo em seguida resolveu ir se deitar.
Contudo, a imagem tornou-se algo assustador na mente de Manoel, que não conseguiu dormir. E foi rolando de um lado para o outro que ele percebeu a ausência da esposa na cama, então, ele chamou em voz alta: – Ofélia?! A voz de Manoel ecoou no silêncio da madrugada sem trazer nenhuma resposta.
Ele se perguntou: – Para onde ela foi numa hora dessas? Ao se levantar da cama, Manoel ouviu um choro muito angustiado.
De repente, a porta do quarto reservado ao quadro foi arrombada por um forte chute do marido, que ouviu o choro vindo de lá.
Surpreendendo a esposa, o marido perguntou: – Afinal, quem é esse Menino da Lágrima?! Qual é a idade dele?! De onde ele veio?! Por que está chorando?!
– Não é ele que está chorando, disse a esposa virando-se para o marido. Este quadro mostra a tristeza de uma criança, que simboliza a minha tristeza que está presente na nossa vida.
Quando ela estendeu os braços, Manoel pode ver naquele embrulho, que a mulher havia usado a técnica de taxidermia para conservar o filho que havia perdido durante a gestação, e não era o quadro, e sim o feto empalhado, que chorava sem verter nenhuma lágrima.
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F. Aldebaran
(Escritor)
"Pelos erros dos outros, o homem sensato corrige os seus". (Oswaldo Cruz)
O sol ainda não havia lançado os seus primeiros raios no horizonte tristonho. Muitas pessoas ainda estavam dormindo, em seus aconchegantes aposentos. Mas lá no início da rua, os feirantes chegavam, carregando ferros, lonas e caixas.
No meio da feira, sentado numa esteira suja, um velho com barba feita em tranças, maltrapilho, vendedor de hortaliças, versejava. Dizia palavras distorcidas, inexatas. Para aqueles que passavam. Em voz alta e com alguns gestos ele recitava seus versos, mesmo sabendo que nem todos que passavam, paravam para ouví-lo. Ele dizia:
"Em Imperatriz, o sol estorricante naquela tarde sufocante, em uma cama velha deleitavam-se ofegantes, um casal de jovens amantes. Ele suspirava Ela gemia. Tudo isso na mais orgásmica euforia. José bolava um baseado, no momento que Maria se vestia. José riscou o isqueiro. Maria vestiu a calcinha. José deu uma baforada. Maria disse: – Eu não agüento mais essa vidinha.
Maria era uma beldade. E muito ambiciosa, queria subir na vida, sair da humildade. Mesmo assim, teve a infelicidade, além de morar no subúrbio da cidade, conheceu José, seu namorado desde seus quinze anos de idade. José com seu sorriso amarelado gabava-se de ser um ótimo empregado: – Agora, atendo telefone e dou recado. Maria lhe ouvia.
Contudo, um estranho sentimento aos poucos a possuía. Discordando daquilo que José dizia. Maria repudiava a atitude de José aceitar aquela pobre condição. De ser um simples proletário, cachorro fiel de um imbecil patrão.
José vestia calças jeans, mascava chicletes e gostava de futebol. Maria gostava um pouco dele, mas o via como uma barreira para a tão sonhada ascensão. Maria tinha sonhos soberbos, subir nas passarelas, desfilar na França, Alemanha, Milão. Queria conhecer Nova Iorque, viajar de avião. Maria não gostava de andar de moto-taxi, nem de ônibus. Falava errado como se fosse entendida, imaginava qual seria o gosto do caviar Enquanto mastigava feijão. Ao lado de fora do barraco, próximo ao portão, José disse a ela no ouvido: – Te amo de coração. Abraçaram-se e beijaram-se e cada um seguiu o seu destino, mudando de direção.
Na feira tem de tudo, os mais diversos produtos, roupas, sapatos e até mesmo tecnologia de importação, carrinhos a controle remoto, videogames, CD's importados da china, Estados Unidos, Suécia e do Japão.
A feira é o caminho que a cada dia que passa se encaminha grande parte da população. Desempregados, endividados, advogados e arquitetos, professores e desesperados, que vêem nesse negócio uma solução. Chamam-lhes de autônomos, larápios, escória da civilização.
Todavia, os vendedores ambulantes persistem. Levantam de madrugada, carregam suas enormes caixas e aventuram nos festejos, aonde dormem mal, em redes e no chão. Encatembando e descatembando barracas, enfrentando uma existência subumana, na triste labuta, para descolar o pão. Mesmo com tanto sofrimento, há pessoas alegres, que encontram diversão, assim é o Zé, o Mané, o doutor Seixas, o carioca, a Dona Marocas e o Ceará. Graças as feiras, Dona Clementina criou Maria. Sem lhe deixar faltar a roupa, o lápis e o caderno para ela aprender o bê-á-bá. Já crescida, Maria achava tudo pobreza, aquela ridículo mundo de submissão.
Maria passou do outro lado da feira. Dona Clementina acenou com a mão. Mas logo ficou decepcionada, pois a sua filha virou a cara, e fez que não olhou. Maria tinha vergonha da própria mãe, por ela ser camelô. Chegando em casa Dona Clementina encontrou a filha assistindo a um programa de fofocas e disse: – Contigo não falo mais. Rapariga metida. E ela respondeu: Mamãe, aguarde, serei celebridade, capa de revistas e estarei nas colunas sociais. Dona Clementina disse: – Filha, mesmo sendo humilde podemos manter a cabeça erguida. Eu só peço a deus e a todos os orixás, filha deixe o orgulho e a ambição desmedida para trás. Para enfim, a sua alma encontrar a verdadeira paz. Maria não deu ouvidos, foi para o seu quarto, feito a serpente de Satanás. Lá chegou a conclusão: – Aqui nessa merda de cidade não fico mais. E foi essa a sua decisão. Arrumou sua trouxa de roupas, para sair de Imperatriz do Maranhão.
Não podia ir de avião, mas devido a formosura de suas pernas, viu que poderia ir na boléia de um caminhão.
– Para onde quer ir moça?
– Quero ir para o Rio de Janeiro, com fé em São Sebastião.
Então, o caminhoneiro barrigudo disse: – Fique sabendo que não dou carona, mas para você abrirei uma exceção.
–Vamos, você não vai se arrepender, farei tudo que o senhor quiser, é só dizer.
E de posto em posto, e de gozo em gozo, o caminhoneiro despediu-se de Maria, quando chegaram no Rio de Janeiro. Maria olhou para o céu e disse: – Este é o mais belo Estado brasileiro. Maria estava em uma grande cidade. Visto que não conhecia ninguém, passou por necessidades também. E viu que estava longe a tão sonhada felicidade. Maria nada sabia fazer e se perguntou: – o que é que vou comer? Então, Mary, conheceu o Rio de Janeiro. Copacabana, Araruama, Caju e Nova Iguaçu, Praça Mauá e a Ilha de Paquetá, Búzios e Duque de Caxias, e subiu até mesmo no morro da Rocinha, e assim, tirando e colocando a calcinha, conheceu o que queria e o que não queria conhecer, mas descobriu muito bem o que sabia fazer.
Ela fez muitas amizades nesses passeios. E conheceu Renato Portela, que prometeu a ela tirá-la do anonimato para deslumbrar nas passarelas. Mary disse que aquilo seria tudo na vida dela. Mas, o que foi prometido, não foi dito em jantar a luz de velas. Foi prometido em uma roda de pagode lá no alto da favela. Mary observou que as coisas haviam mudado. Pelo menos o pó que Renato Portela cheirava, incomodava menos, que a fumaça dos baseados do seu ex-namorado. Renato Portela era um homem badalado.
Através dele, ela conheceu algumas modelos. Entre elas a Beatriz, que lhe ensinou a puxar aquele pozinho branco pelo nariz. E os dias foram-se passando. E ela cada vez mais conhecida, glorificou-se no ponto que chegou. Entre políticos, nobreza, na alta roda do whisky, da luxúria e dos banhos de champagnes de cereja. Mary conheceu a ilusão da ascensão. Mas, persistia na queda. Talvez para espantar uma possível timidez, tornou-se constante o seu estado de embriaguez. E ela caiu na passarela, diante de um público burguês. Perdeu a conta das loucuras que fez. Todas por dinheiro, e por estupidez. E foi pega portando o produto que reduzia a sua lucidez.
Com Renato Portela, que do tráfico era o rei, Mary foi presa, e foram para o xadrez. Na frente de um delegadinho arrogante que ostentava um ridículo bigode e de dois policinhas, ela disse de mansinho: – Não seu doutor, não conheço esse homem. Não sei o que ele fez. O que posso afirmar que ele era apenas um freguês.
– Cala a boca, magrela, vadia, puta, cadela, pois já te viram nos morros andando de carro do ano ao lado de Renato Portela. Da sua boca não quero ouvir mais nada. A não ser, de onde vieram aquelas sete toneladas.
Mary foi espancada. Presa junto com mulheres da barra pesada. Caída na cela, triste e humilhada, com o resto de sua alma ela pensava, "Eu não sou nada".
Por rádio, jornais, internet e televisão, a notícia se espalhava a nível nacional. "Foi preso Renato Portela, o famoso empresário acusado por tráfico de drogas e rede internacional de prostituição". Mas, na verdade, Renato Portela foi rapidamente absolvido. Tinha muito dinheiro, e a ameaça de abrir o "bico". Deputados, senadores, juízes e desembargadores se viram encurralados, absolveram-no para manter um suposto "segredo de Estado".
E no Maranhão, na feira municipal de Imperatriz, uma mulher correu segurando um jornal, olhou para Dona Clementina e fez um sinal.
– Dona Clementina olhe quem está em todos os jornais... Era a foto de Maria, e junto com ela, outros marginais." Os versos do poeta cego de um olho, velho, sujo, feio, louco, magro e capengo, foram apenas palavras soltas, vagando pelo ar. Sem receber ao menos o acalanto dos aplausos.
F. Aldebaran
(Escritor)

“O mundo assim como está não é suportável.
Por conseguinte, preciso da lua, ou da felicidade,
ou da imortalidade,
de qualquer coisa que seja loucura, talvez,
mas que não pertença a esse mundo.” Albert Camus
Discursos não ressuscitam ninguém. Mas existem para disfarçar o tédio ou entediar completamente. Um refrigério aos ossos secos que já não abrigam o espírito, que outrora fez crescer carne sobre eles, e estendeu pele sobre o que era um corpo enfeitado.
Ouça os ruídos, barulho de ossos batendo em ossos, olhe pela janela e veja a cidade recôndita na monotonia do cotidiano, na indiferença.
Nessa cidade invisível todos são imperceptíveis, pois essa cidade não permite que se viva perceptivelmente. Se a vida fora do quarto fosse menos abafada... Sem ser e viver da forma desejada não há prazer em respirar.
Aquilo que tanto se deseja esgota a habilidade para perceber a mais feia e vergonhosa disposição. Todo o orgulho e glória, toda satisfação, e tudo quanto se pode considerar superior e excelente nada mais são do que ossos secos corruptos e desprezíveis. A luz matou você também. Por isso que essa voz da folha escrita chora terrivelmente: — Eu quero sair desse espelho! Não quero ficar aqui, eu quero sair! Não é fácil conseguir se vê.
Mesmo que insultem, uma ofensa que vem daqueles que não se permitem viver além do anseio de fazer tudo que o resto do mundo faz, e que abrem mão dos próprios desejos, é um louvor àqueles que vão além da mera responsabilidade austera que destrói a vida. Êxito sem sofrimento, sem nenhuma cruz, para quem não se enquadra em regras, e sabe lidar consigo mesmo.
O enquadramento e a conformidade dos comportamentos marcham pelas ruas caindo nos buracos com risos plastificados que disfarçam dentro deles tudo que é visível, os mundos e sonhos criados, e todas as ambições veladas. A vontade comprimida pelos diversos julgamentos, que transformam um ser de liberdade num ser louco. E o ser louco é ser saudável, que coloca para fora todas as coisas que se julgam feias, bonitas, e totalmente diferentes quando fora de si.
A pejoração da loucura é apenas uma armadilha para reprimir a manifestação do universo interno. Nesta cidade invisível quem vê alguma coisa é louco. Entende, agora, porque a maioria não acredita que o externo seja criação do interno?
F. Aldebaran
(Escritor)
“Olho em redor do bar em que escrevo estas linhas.
Aquele homem ali no balcão, caninha após caninha,
nem desconfia que se acha conosco desde o início
das eras. Pensa que está somente afogando problemas
dele, João Silva... Ele está é bebendo a milenar
inquietação do mundo!” Mário Quintana
Jabileu, este feio apelido foi a única coisa que ganhei na vida – disse o rapaz para o seu amigo, que tentava consolá-lo dizendo: – Mas hoje você vai se divertir nos brinquedos da Disneylândia! Tome um gole! E passou a garrafa para Jabileu tomar um gole.
Frustrado, Jabileu disse: – Bicho, acabou a caninha. Vamos comprar outra garrafa?!
Concordaram. Todavia, quando consultaram os bolsos, a tristeza, a impotência e a fissura figuraram-se nos rostos deles.
Aqueles rapazes não tinham trabalho. Eram estudantes, de uma escola pública, embora tivessem repetido a quinta série pela sétima vez, portavam carteirinhas para pagar meia.
Dona Naná Pereira da Silva apareceu na sala segurando no cólo o seu gato muito estimado, chamado Xâne. Ela disse: – Jabileu abaixe o volume desse som!
Enquanto o rapaz embriagado trombava nas próprias pernas, Dona Naná esbravejava: – Você é um troço nojento! Imprestável! Não vale o que o meu Xâne enterra! Fica perturbando a vizinhança com esse barulho, me perturba, perturba até o meu gato! Maldita hora aquela em que me esqueci de tomar a pílula e cai na lábia do vagabundo do seu pai. Poderia ter evitado esse acidente trágico. Jabileu já havia abaixado o volume, e ouviu perfeitamente; mesmo mais baixo, ainda podia se ouvir a música que tocava, era uma dessas bandas de rock pesado. O amigo dele se olhava no chão como quem se olha num espelho.
Em meio aos acordes terríveis da música degradante, Jabileu sentiu uma terrível sensação de impotência, sentiu a vida sem significado, vazia. Sentiu dor. Não aquela dor que indica algum problema em alguma região do corpo físico. Jabileu sentiu uma terrível dor na alma.
A angústia é a dor da alma.
Ela surge para contar uma história, que história?! Ela indica que há algo de errado na vida da pessoa.
Mas a angústia não é negativa. Muito pelo contrário, ela é positiva, pois ela diz o que há de errado. Qual erro?! Qual problema?! Ora, essa existência tem um significado, mas se Jabileu percebia ou não, aí é outra coisa.
Naná Pereira da Silva disse: – Mande este outro vagabundo tomar o rumo dele, não o quero aqui dentro da minha casa. Estou de saída. Irei ao velório da Dona Maria do Carmo, volto de manhã. A anciã beijou o gatinho e o colocou sobre o único e velho tapete do casebre, e partiu. Mas a voz da mãe de Jabileu ecoava dentro da mente dele dizendo: – Você não vale o que o meu gato enterra!
Jabileu lembrou-se de uma garrafa de álcool de farmácia que havia em casa. Ele queria beber mais um pouco de caninha, mas não tinha dinheiro. Ele queria ir a uma igreja, participar do grupo de jovens, mas não podia pagar dízimo. Quis se matar. Mas não podia comprar um revólver.
Precisava dialogar com ela, com a angústia, para vencê-la.
Jabileu não quis saber de diálogo. Misturou o álcool de farmácia com açúcar e bebeu, o amigo ficou apenas o observando estremecer revirando os olhos enquanto abria a boca desesperadamente batendo no peito.
A angústia, quando recusada, vai aumentando até aparecer.
Quem não sente angústia não reflete sobre o que está fazendo nesse planeta, nessa vida. Será, então, que tudo se resume em só trabalhar, comer, reproduzir e dormir?! O gato de Dona Naná esfregou-se nas pernas de Jabileu.
O rapaz o agarrou com muita fúria, quebrando-lhe o pescoço. O amigo contemplava muito sereno aquela atitude condenável.
Jabileu aumentou o volume da música, e enquanto o gato estrebuchava, ele foi buscar uma faca. Quando retornou com uma faca não amolada, ele disse ao amigo: – Vamos tomar esse álcool açucarado com esse tira gosto! Vamos nos divertir nos brinquedos da Disneylândia!
Então, ele começou a tratar o bichano. Jabileu não sabia temperar uma carne e não sabia o tempo correto para deixar um alimento ferver ou fritar. Muito mal passada ficou a carne de Xâne, que foi devorada pelos amigos endoidecidos. Jabileu pegou a cabeça do animal e disse: – Vou enterrá-la no batente da porta do quintal.
Pela manhã, Jabileu despertou ouvindo um chamado. Doía-lhe muito a cabeça. Um gosto terrível amargava em sua boca, os seus poros expeliam suor fedorento. O seu amigo havia ido embora. Jabileu ouviu os chamados pela casa: – Xâne, Xâne, psiuuiu, psiuui... Xâne... Dona Naná Pereira da Silva se lamentava: – Oh, meu Deus, coloquei o leitinho dele quando cheguei e até agora o meu gato não apareceu. Já perguntei para as vizinhas se elas viram o meu Xâne e elas disseram que não. Xâne, psiuiuisui... Ai que tristeza meu Deus... Xâne, Xâne...
Jabileu levantou-se e foi se sentar ao batente da porta do quintal, onde ficou sorrindo disfarçadamente durante toda a manhã.
F. Aldebaran
(Escritor)
O bardo estava muito cansado, muito esgotado pelo esforço despendido. Como se numa masmorra estivesse, estava atormentado pelas tantas batidas de porta do condomínio, abre e fecha, abre e fecha o senso comum... Escrever alguma coisa. Isso seria um exercício para um pensamento atrofiado. Escrever requer mais esforço do que ler.
Seria muito difícil chegar a uma conclusão sozinho, desenvolver sozinho o raciocínio. Mas, o que se ganha com isso? Uma fotografia na coleção dos que morreram inutilmente pela humanidade?! Não. Ganharia dinheiro! Muito dinheiro! Pois as horas gastas num trabalho terrivelmente maçante, que deveriam ser usufruídas em momentos gostosos, devem mesmo ser muito bem recompensadas, ele meditava.
Todavia, Lolina, a amiga prostituta de sua irmã por parte de pai, tentou ser escritora. Ela lançou um livro e ganhou as palavras: - lindo, muito bom o seu livro! Mas palavras não compram jóias e não pagam contas, que sempre eram quitadas em dias quando ela se prostituía. Talvez, devido à influência da profissão, ela se despiu demais, e o estilo revela muito sobre o autor.
Se o autor usa muitas palavras vestidas é perturbado, obscuro, quer esconder ou pode tentar parecer saber mais do que sabe. E se usa palavras nuas, como Lolina, jamais conseguirá escrever uma obra de arte que faça as gerações de críticos inúteis se debruçarem com prazer sobre a sua leitura, que como um ciclo ininterrupto consome a vida.
E o que mais atormentava o bardo não era aquela batalha interna na terrível guerra do se conhecer a si mesmo ou ficar rico. E sim, a porta. Com o tempo, ele já conseguia identificar todos os moradores da espelunca, que nunca via, nem cumprimentava, mas somente pelo abrir e fechar da porta. Um batia com muita força, outro suavemente, um girava a chave com muita agressividade sempre de madrugada, outro nem sequer se ouvia abrindo. Mas quando se fechava a porta abriam-se outras, a moradora bisbilhoteira do Nº 333 tem a junta da fechadura enferrujada, incomoda. Tem aquele que deixa a porta escancarada, sim, é o morador mal educado do Nº 666.
O bardo deitou, tentando esquecer os seus livros, aceitando a ideia de que o mundo precisaria mesmo de silêncio, não de palavras ou ranger de juntas velhas, ele se cobriu com o lençol e dormiu, para sonhar com a Obra.
F. Aldebaran
(Escritor)
"A beleza salvará o mundo." Dostoiévski
Aquele empresário era muito conhecido pela sua falta de caráter. E assim ele se mostrou no momento em que a bela jovem chamada Beatriz lhe entregou um inexpressivo currículo.
Uma garota tão linda, tentando conseguir ocupar um cargo simplório, disse o malicioso empresário. Beatriz era mesmo muito bonita. Mas ela possuía uma beleza ainda mais esplendorosa, que, no entanto, ficava muito bem guardada, invisível.
E isso não interessava ao empresário, que olhava para formosura daquele corpo e se perdia em desejos. Ele disse: - tudo irá depender do seu desempenho, você pode subir de cargo muito rápido, mas precisará se dar completamente. Vamos marcar um jantar, então, poderemos conversar mais, beber um pouco de vinho...
Beatriz repudiou a atitude do empresário, e resolveu agir da seguinte maneira, ela disse: - tudo bem. Mas, eu gostaria de lhe pedir apenas sete dias, para convencer a minha mãe a me deixar sair à noite. O empresário aceitou prontamente o pedido inocente. Então, marcaram o encontro.
O homem esperou com muita ansiedade. Enquanto Beatriz adotava um método muito estranho. Ela tomou purgantes exageradamente. E durante sete dias seguidos ela foi acometida pela diarréia e vomitava tudo que comia.
Então, ela armazenou todas as fezes e os vômitos em recipientes adequados. Como resultado, a bela jovem tornou-se magra e descorada como um esqueleto.
Sete dias se passaram.
No local combinado ela sentou e ficou esperando. O empresário chegou esbanjando bons modos ao descer do seu carro de luxo e perguntou para feia jovem que estava sentada ali a respeito da bela jovem com a qual queria se encontrar. Ele não pôde reconhecer naquela coisa de olhos fundos e desgrenhada a mesma beleza que ele tanto procurava.
Embora ela repetidamente tivesse afirmado sua identidade, mas devido a sua deplorável condição, ele não foi capaz de reconhecê-la. Por fim, Beatriz disse a ele: - eu guardei os ingredientes da minha beleza armazenados em recipientes. Você poderá desfrutar os sucos da minha beleza. Ela colocou diante dele todas as fezes e vômitos que emanaram um odor insuportável quando os recipientes foram abertos. E assim, toda a história da beleza foi revelada àquele homem frustrado.
F. Aldebaran
(Escritor)

Meu segredo profanamente sagrado,
Amada e temida, prazer em vida, fogo e aniquilação.
À distância vejo a tua cor negra que absorve todas as cores,
E quando de mim, está bem perto, dissolve o que não é.
A tua nudez coberta de céu transcende todas as formas.
Teus cabelos se agitam sobre os crânios de teu colar,
E no teu ventre balança o cinto de mãos cortadas,
Daqueles que tiveram seus trabalhos superados.
Toco em tua face e em teus seios lambuzados de sangue,
E os teus gemidos mântricos são entoados pelo ritmo excitante de nossos corpos unidos pelos nossos opostos.
Sem a tua Shakti sou impotente e inerte.
A vida e a morte unidas sob as chamas das velas em castiçais,
Sinto teu hálito de incenso de sândalo,
Esfrego-me no teu suor de óleo de almíscar,
E no teu corpo reconheço a natureza efêmera e imprevisível.
No calor de nossa cripta nupcial, ornada de pétalas de flores e rosas, que ressecadas caem das coroas fúnebres,
Junto das mensagens de saudade deixadas no sétimo dia aos entequeridos, gozamos de prazer suave.
Somente há cinzas e pó de cadáveres ao nosso redor.
Tudo que tende aprisionar está dissolvido.
OM Kali, OM Kali, OM Kali.
Meu segredo profanamente sagrado.
Olho no fundo dos teus três olhos,
E vejo o Sol a Lua e o fogo.
E vejo o passado, o presente, e o futuro.
Mas, existe aquilo que deve ser conhecido.
E existe o que jamais poderá ser revelado.
Mas tu não tens vergonha,
Tens o corpo nu, exibindo a tua beleza cruel.
E oculta a tua face sob os véus escuros do silêncio,
E quando mostra a tua língua ardentemente escarlate, que se agita numa voluptuosidade serpentina, consome todas as coisas e aprecia todos os sabores que o mundo diz ser proibido.
A criação e a destruição estão em tuas mãos.
Empunha a espada ensangüentada, e a cabeça da falsa consciência cortada.
E sussurra em meus ouvidos: "não temas!".
E me abre os teus portões, quando te peço:
Abre! Abre! Abre!
Abre-me teu portão de liberdade!
Eleva-me no teu furor de fêmea indomável no cio.
OM Kali, OM Kali, OM Kali.
Conceda-me a dádiva da tua flor orvalhada de sangue que arde em fogo brilhante de verdade.
Deleite há no inefável encontro do fim com o início.
E no Vale da Morte, sobre as lousas dos desencarnados,
No nosso leito mortuário, pecado é o que se faz do desejo o contrário.
Incitantemente, teus quadris oscilam e derramam o líquido da tua taça.
Surge o teúrgico equinócio, e a lembrança de todos os finais de tardes,
Em esplendor eterno, traçado sobre nossas cabeças como um arco-íris,
Na casa número treze de São João Batista.
Venha! Venha! Venha!
Negra como a noite, e dance no meu coração,
Onde tudo arde, onde tudo queima.
Dance sacudindo teus cabelos e solte um berro sinistro,
Mostre-me o mundo sem controle.
Um mundo criado e destruído na tua própria dança selvagem.
Eu sou convidado a fazer parte dessa dança, dança frenética de vida e morte.
Esta dança que arrebata meu espírito, e que faz desaguar minha fonte orgásmica de matéria, onde insaciavelmente tu bebes, e te banhas.
OM Kali, OM Kali, OM Kali.
*Dedicado a minha amada Shakti Kali.
(Embora permaneça para sempre oculta aos olhos do mundo, pois existe aquilo que deve ser conhecido, e existe o que jamais poderá ser revelado, você sempre estará no fundo do meu coração e nas entrelinhas da minha escrita).
F. Aldebaran
(Escritor)
Nunca consegui esquecer essa história contada pelo meu avô, o Sr. Raimundo Pedro Honorato.
Com o seu chapéu, rosário no pescoço, mascando fumo, com a voz grave e o rosto com sombras, sob a fraca luz amarelada de uma lamparina, numa noite fria, lá no alto da serra, na pequenina cidade de Poranga, no Estado do Ceará, ele me contou:
"No tempo antigo, Manoel Rosa, marido da Sra. Sofia, morava no Mangaré. Ele era vaqueiro do finado Abdias Morão, o sogro dele era o finado Alves que morava no "Zói da Guinha", abaixo da Tapera. Ele havia acabado de chegar na casa do sogro, tirou a cela do cavalo, e lhe deu de comer.
À noite ele foi dormir cedo. Então, ele sonhou com a vaca, a qual não recordo o nome, que tinha caído no bebedouro. Ai ele meteu os pés acordado, cortou um fumo, fez um cigarro e foi buscar o cavalo. Colocou a cela e se mandou dos Zói da Guinha, que fica acima das "Lontras", e se mandou rumo ao Mangaré.
Quando ele chegou lá no Jacaré, tinha um alto pra subir, lá no alto havia um pé de angico velho, grosso, seco, onde o povo fazia um "T" nesse ponto, no subir de uma ladeirinha, aí ele estava passando, naquele cavalo muito bom, que não tinha rés que ele não pegasse com este cavalo, que nunca havia sido esporado.
Então, ele ia passando, quando uma voz falou de baixo do pau velho seco, perguntando, "Pra onde vai?!" E ele ficou calado, e continuou caminhando, e a voz perguntou novamente, "Pra onde Vai?!" E ele calado. Na derradeira vez, que a voz perguntou, "Pra onde vai?!", ai ele disse: - Vou lá pra casa, quer ir mais eu vambora!
O finado Manoel Rosa era assim meio desastrado, que quando essa voz perguntou pela terceira vez e ele deu aquela resposta, um vulto se escanchou na garupa do cavalo.
Com aquele peso na garupa, o cavalo abaixou-se. Ai ele se perguntou, que negócio é esse?! E o cavalo mancou a marcha, foi subindo a ladeira "devagarinho" até que seguiu. E Manoel Rosa se disse: - mas nunca esse cavalo "fracateou" a marcha e agora tá "fracateando". Como que de lá prá chegar no Pajaú não era muito longe, onde morava o finado Mané Luiz, irmão da filha do Antônio Geraldo, então, ele cortou este cavalo na espora.
E o cavalo mal caminhava, quando ele chegou na cancela, que era a casa de morada da Fazenda do Pajaú. No alto da cancela ela fazia a forma de uma cruz de cada lado, e ele passou por debaixo da cancela montado no cavalo, e o peso saiu da garupa do cavalo.
Quando ele chegou no alpendre da casa se apeou, afrouxou a cela, e sentou num acero, e o cavalo ficou se balançando assim pra cair, cansado que vinha pingando sangue dos vazio, e ficou lá suando e pingando.
Depois ele tirou a cela até que ele tomou fôlego e melhorou, ele colocou a cela e o cavalo tomou a marcha dele. E ele foi até o bebedouro. Então, ele viu a vaca caída dentro do bebedouro. Ai ele puxou a vaca pelo chifre e a tirou do bebedouro. Depois ele lanhou o cavalo e o colocou no cercado.
Quando chegou em casa ele chamou a mulher, Sofia! O dia estava amanhecendo. Ela respondeu e levantou-se, abriu a porta, ele entrou e colocou os arreios dentro de casa. Então, ela disse: - A vaca "fulana" tá caída dentro do bebedouro lá no Pajaú, ai ele respondeu, ela tava caída no bebedouro, mas eu já a tirei de lá.
Ela se espantou e disse: - Como você já tirou a vaca do bebedouro, Mané?! Quem foi que te disse que esta vaca estava no bebedouro? Ele respondeu: - Eu sonhei.
Depois ela arrodeou e viu o cavalo todo rasgado de esporas nos vazio. Ela perguntou: - Que mal fez com este cavalo bom de rés?! Ele contou o que tinha acontecido. Sofia disse: - Como você tem coragem de ouvir uma marmota e chamar pra cima do cavalo, seu lezado?! – Ehh... Mas... Eu nem sabia o que era, respondeu Mané, muito desajeitado."
F. Aldebaran
(Escritor)
Assim passaram-se os anos, desde o dia que aquele homem gritou comigo como se eu fosse um cachorro: - o senhor precisa saber como servir o chefe!
Dentre todas as desgraças advindas com o surgimento do capitalismo no planeta, uma das mais nocivas e pestilentas é a imagem do animal vulgarmente chamado de chefe na vida das pessoas.
Geralmente, aquele que consegue ocupar essa posição, na maioria das vezes, não consegue por qualidades intelectuais, mas por meio de familiares, apadrinhamentos, dívidas ou qualquer outro tipo de interesse velado, e principalmente pela grande capacidade de atormentar a vida de pessoas que querem ser felizes. O pior acontece quando um dentre os escravos do ponto é escolhido para fiscalizar os demais, a este se conhece pelo nome de substituto, ou chefe imediato, que é o prato desta história.
Ah... Mesmo velho e doente, eu continuo apoiando-me nesta faca que sempre trago na cintura, pois não consigo esquecer a alegria daquele dia. Não consigo deixar de sentir essa sensação cada vez que volto à minha memória a recordação do homem que matei numa emboscada, cravando-lhe a minha faca em seu ventre.
Tão sofredora foi a agonia que o vi padecer, que a cena ainda volta com frequência e com muita clareza de detalhes na minha mente setuagenária. Lembro dos meios de comunicações informando a notícia. Aquele homem se converteu no centro de uma tragédia para toda uma família, para todo um círculo de amizades, para toda a cidade e o país.
Enquanto eu terminava de ligar para os meus companheiros de trabalho, convidando-os para o banquete, eu retalhava o chefe em pequenos pedaços com um afiadíssimo cortador de unhas, retirando cuidadosamente a carne dos ossos. E foi justamente na hora de temperar, que a dúvida me perturbou, como servir o chefe?! Assado, cozido, ao molho madeira... Infelizmente, a culinária não era uma das minhas habilidades.
Até hoje não posso explicar-me de onde nem como me veio aquela ideia, mas senti um grande bem estar interior ao realizá-la.
De maneira que fazia tudo o possível para fugir do arrependimento, principalmente naquele momento que até cheguei a sentir inveja da frieza com que meus amigos enchiam os pratos e me perguntavam:
- Romero, que carne gordurosa é essa?! Quase não tem gosto!
- Porco de cativeiro urbano, respondi.
- Tão diferente! – Disse-me um companheiro de trabalho com a boca cheia.
- É o tempero. – respondi, e comi um pedaço.
Outro amigo preocupado com as horas disse-me:
- Tenho que ir, você sabe, amanhã cedo temos que ir trabalhar.
Mas logo eu o aliviei daquele incômodo, dizendo:
- Acalme-se, amanhã será um dia tranquilo.
Eu já contava com no mínimo dois ou três dias de luto. Contudo, me causava assombro, cada vez que via nos jornais, as manchetes registrando aquele sumiço trato como um acontecimento sem precedente na história da cidade de Imperatriz, no Maranhão. Os jornais pagavam somas elevadíssimas pela notícia; por sua vez, as pessoas pagavam com gosto para lê-las.
No dia seguinte, os amigos trataram sobre o desaparecimento diretamente comigo e os não conhecidos indiretamente.
Aquele banquete se converteu em um fantasma que persegue minha consciência. E assim passaram-se os anos, os demais noticiários sobre mortos, feridos, bombardeios e os jogos de futebol, encobriram-no totalmente. Pensei um instante neste fato aparentemente casual, assim estava ocorrendo com os meus próprios sentimentos, e nesse instante recordei os suplicantes olhos daquele homem que eu havia ferido a faca. Acredito ter visto naqueles olhos uma reprovação impotente, que me pedia perdão. Esta cena se repete em minha memória e junto dela me assaltam pensamentos de esperança, eu queria crer que a alma desse homem tivesse encontrado alguma compensação noutra vida.
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(Escritor)
Naquele final de tarde o pai retornou do trabalho e deu um abraço na filhinha quando chegou em casa, e a pequenina foi logo dizendo:
- papai, eu preciso lhe contar uma coisa.
O pai sem dar muita importância a conversa infantil, disse como que mecanicamente:
- Conta filhinha, conta...
A menina disse:
- Um coleguinha da escola me bateu.
Como que tivesse tomado um choque, o homem virou-se esbravejando:
- O quê?! Você apanhou?! Não deixe ninguém bater em você!
Faça o seguinte, quando quiserem lhe bater acerte um soco no nariz do inimigo.
A menina disse assustada:
- Eu?! Bater no nariz do meu coleguinha?! Não, não, não... Ele vai chorar!
O pai enraivecido disse:
- Então, pegue o caderno e acerte-o bem no meio da cara daquele que quiser bater em você.
A menina disse:
- Meu caderno de tarefas?! Não, não, não... O caderno é para fazer as tarefas, para aprender!
O pai, sem desistir do incentivo à violência, disse:
- Filhinha, pegue um lápis, aponte-o bem apontado, depois o enfie na perna do seu coleguinha e corra!
A menina disse:
- Eu não vou fazer isso! Vai sair sangue!
O pai retrucou:
- E o que é que você vai fazer?! Apanhar?!
A menina, com o semblante da inocência imaculada, respondeu:
- Eu vou dizer para ele que isso não se faz com as pessoas.
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(Escritor)

No Tibet, um neófito meditava no templo, e pensava ver uma assustadora tarântula negra descendo à sua frente. A cada dia a criatura ameaçadora retornava cada vez maior e mais negra. Tão horrorizado estava o neófito que finalmente foi ao seu mestre para relatar o seu dilema:
“Não posso continuar meditando com tal ameaça sobre mim.” - disse o rapaz tremendo de pavor.
“Vou guardar uma faca, durante a meditação, de forma que quando a diaba aracnídea aparecer eu possa matá-la a facadas!”
O mestre, tomando o seu chá psicodélico, o advertiu contra aquela ideia:
“Não faça isso. Não dê uma facada na tarântula. Faça o seguinte: leve um pedaço de carvão na sua meditação, e quando a tarântula negra aparecer, marque um “X” na barriga dela. Depois disso venha até mim.”
O neófito retornou à sua meditação.
Quando a tarântula negra apareceu, ele lutou contra o impulso de atacá-la com a faca, em vez disso, ele fez como o mestre sugeriu. Em seguida, o rapaz correu gritando:
“Mestre, eu a marquei na barriga! Fiz o que me pediu! O que faço agora?”
O mestre respondeu:
“Levante a sua túnica e olhe para a sua barriga.”
Ao fazer isso, o neófito viu o “X” que havia feito, e aprendeu que os templos, sinagogas, mesquitas, e igrejas estão cheias de aranhas ensinando e aprendendo fazer teias.
Do livro O Mistério da Tarântula de F. Aldebaran
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F. Aldebaran
(Escritor)

É com muita satisfação que estamos presenciando a grande evolução literária que está acontecendo em Imperatriz.
No dia da Língua Portuguesa, 10 de junho, tivemos o prazer de comemorar a Flor do Lácio com o lançamento do livro Simba, do obstinado escritor Livaldo Fregona.
Poucos dias depois aconteceu o IX Salimp, livros e mais livros para leitores sedentos de conhecimento e entretenimento de qualidade.
No dia 18 de agosto, o ilustre advogado e escritor Miguel Daladier lançou o livro O Drama dos Refugiados Ambientais no Mundo Globalizado e o poeta Zeca Tocantins palestrou na sede da A.I.L sobre os Aspectos Relevantes da Cultura de Imperatriz.
Nesta fase áurea, aconteceu a eleição da Academia Imperatrizense de Letras para ocupação da cadeira de número 19, antes ocupada pelo escritor José Ribamar Fiquene.
Para os místicos, este número simboliza o Sol.
Merecidamente, Weliton foi eleito pelo brilho irradiante da sua inteligência, ele que é Professor de Direito da UFMA, Doutor em Direito Público, Juiz, e já publicou os seguintes livros: Travessia Sem Fim, Descobrimento do Explícito, Sustos do Silêncio, Tempo em Conserva e Geometria do Lúdico – uma boa leitura, com fortes influências do concretismo do colossal Ferreira Gullar, e a incrível capacidade de escrever pouco e dizer muito, influência de Mário Quintana, para o qual o poeta dedica alguns versos, pois segundo ele "o poeta que não quer ser influenciado por outros poetas, acaba sendo influenciado pela ignorância" –, em 2009 ele publicou o livro infantil intitulado Pés no Chão, Cabeça nas Nuvens – que teve a sua filhinha, Ana Clara, como co-autora. Portanto, torna-se incontestável a sua genialidade.
E para fomentar ainda mais essa evolução artística em Imperatriz, Weliton Carvalho já se prepara para constituir com outras pessoas uma associação voltada para a inclusão social.
Contando com vários médicos, artistas, escritores, professores de educação física, ativistas - pessoal do centro de cultura negra -, líderes reliogosos, etc.
A ideia, segundo o mais novo imortal, é a pluralidade – isto soa muito bem.
O primeiro projeto da associação a ser lançado dia 5 de novembro no fórum Henrique de La Roque será exatamente o Arte Parte de Vida, que consiste em levar com o uso de telão, vários documentários, shows e concertos, etc.
"Coisas que agregue o espírito. Na verdade a ideia é resgatar a cultura maranhense, como João do Vale, o nosso folclore, e o sonho da biblioteca móvel. Vamos tentar sensibilizar o empresariado, o poder público, enfim toda a sociedade e seus atores. Estamos, por evidente, abertos a sugestões. Sexta-feira, 02/09, será a primeira reunião do grupo, ocasião em que muitos dos componentes terão a oportunidade de se conhecerem e debateremos os pontos fundantes da associação" – afirmou o Letrado, pronto para atuar no desenvolvimento intelectual de Imperatriz.
F. Aldebaran
(Escritor)

Passando pela sombra da igreja de Santa Teresa D'Ávila, em pleno sol da meia noite do dia, escutei alguém me chamando pela fresta do umbral.
A voz me chamou assim: - Ei, psiu, psiu! Vem cá! Vem cá!
Tentei me aproximar, mas lembrei que não entro em igrejas, pois os gritos da Fogueira Medieval atormentam os meus ouvidos e a minha mente.
Nessa mesma noite de dia ensolarado e escuro, eu vi um demônio parado na esquina, ele me perguntou se eu acreditava em Deus.
Conte-me outra história, disse, o mormaço da tarde me deixou com muito sono. Conta-se muito sobre as escolhas que as pessoas fazem, se coisas boas ou ruins acontecem, são causadas pelas escolhas.
O destino acontece através de nossas escolhas.
Entretanto, desde o nascimento até a morte, a aranha velha ameaça a vontade.
A aranha é quem escolhe quem poderá e quem não poderá ter filhos, que estes nasçam sadios ou não, a aranha velha determina quem sofrerá e quem não sofrerá de doenças hereditárias.
No outro lado da rua XV de novembro, eu vi um anjo.
Tão aborrecido por não estar lá nos altos dos céus, ele disse: - Isso é destino ou fatalidade?!
Como as três Moiras, aquela aranha do umbral se dedica à tecelagem. Cada fio da teia evoca a imagem do mundo criado pela terrível tecelã do destino.
- Quem é ela?! – perguntou um homem enquanto cruzava a encruzilhada.
Seria a aranha a artesã do mundo?!
Foste tu, aranha, quem teceste o véu da Ilusão dissimulada e Suprema?!
Foste tu, quem teceste a Realidade cuidadosamente com teia elástica, resistente, e venenosa?!
Anansi é o teu macho?!
Estou ouvindo os tambores da África!
Sol, Lua, Estrela, Sol, Lua, Estrela, Sol, Lua, Estrela...
A aranha libidinosa tece a teia da Luxúria, ela havia escapado do corpo durante o sono. Se a aranha aberta for vista à noite, é sinal de esperança.
Nunca pense em matar uma aranha. Pois isso é arriscar-se a matar um corpo que se encontra adormecido em algum lugar.
Mas não matar a aranha, é arriscar-se a ser devorado pelos sentidos.
A sabedoria da aranha supera a do mundo.
Do livro O Mistério da Tarântula de F. Aldebaran
F. Aldebaran
(Escritor)
No século XVII aconteceu em Lisboa uma terrível história de amor não correspondido, que atravessou o Atlântico e chegou ao Brasil, especificamente na ilha de São Luís, no Estado do Maranhão.
Uma jovem chamada Dharmaíris foi expulsa de Portugal envolvida num processo judicial movido pelo Juízo Eclesiástico, que a condenou ao degredo.
E para o entendimento desta condenação, este livro levará o leitor a uma incursão na vida social e psicológica de duas mulheres aristocratas. A Sra. Magdalini, a mãe de Dharmaíris, e a Sra. Mitilene Eufrásia.
As primas foram criadas e educadas no seio da realeza portuguesa, respeitando as normas de etiqueta. Mas no período de suas vidas, quando começou aflorar a fase que consiste de fantasias e descobertas, quando seus corpos deram sinais indicando a prontidão para receber um órgão masculino viril, Mitilene despertou o desejo por mulher, pela prima Magdalini.
Todavia, devido à forte repressão social e religiosa da época, ela não conseguiu realizar o seu desejo mais íntimo, e resolveu apelar para forças ocultas, chegando a pactuar com elas para conquistar o amor de Magdalini.
Após esse pacto, uma terrível maldição recaiu sobre as gerações de Mitilene, a bruxa safada de Lisboa.
Dela originaram-se os antagônicos irmãos: o perverso Aym Ronove, que recebeu dela, como legado, um livro sobre como realizar a vontade, intitulado Liber Mageia Magnus Opus; e o bom homem chamado Andras Volac, que sonhava ter descendentes para a glória de Deus, mas descobre que é impotente.
Os irmãos lutam pelo amor de Dharmaíris. Ela possui o dom da fé, o que atrai Aym, que monta uma estratégia maquiavélica para possuí-la, simplesmente para satisfazer desejos luxuriosos e malignos.
F. Aldebaran
Quem poderia descobrir uma verdade naquele hotel de fachada cinco estrelas, mas com quatro caídas e, queimada, a única que ficou no que antes era um letreiro luminoso?
Bem, eu me chamo Proxe Rufião Neto, e naquela noite eu conversava ao telefone, no turno das 23:00h., dizia: - o hóspede do Aptº. 333 disse que iria dormir, pois teve um dia cansativo de trabalho, e pediu para não ser incomodado. Mas se a senhora realmente insistir, passarei a ligação.
- Não, não quero incomodá-lo. Deixe-o descansar, amanhã ele acordará cedo para trabalhar. Anote o recado dizendo apenas que a esposa dele ligou.
Mas para que serve a verdade se existem gorjetas?!
Em seguida, uma profissional do sexo saiu do Aptº. 333 e me entregou uma quantia em dinheiro, 55% do valor do programa. Ela pegou um taxi e foi embora. Logo depois, o hóspede apareceu e me perguntou:
- Então, meu amigo, a minha esposa ligou?
- Sim. Mas pode ficar tranquilo, ela já sabe que o senhor está dormindo.
- Ótimo! Pegue aqui o nosso combinado, e mais essa gorjeta, pois a mulher que você me arrumou era muito boa mesmo. Mas me diga, ainda estou sem sono, poderia me arrumar outra, menos idade, entende? Pago muito bem, que tal mil e quinhentos?
Foi então, que peguei a "A Lista do Amor" – já tão amarelada pelo tempo, no entanto um "tesouro" em minhas mãos -, e liguei para Mel, ela já havia marcado com o prefeito. Liguei para Lulu, já estava de saída com um general. Liguei para Cléo, ela sussurrou dizendo que estava com um pastor milionário. Liguei para Tâninha, mas ela deixou recado dizendo que tinha ido para Espanha.
Sem as melhores opções, ficou difícil cumprir o acordo estabelecido com o cliente. E quando tudo parecia estar perdido, ela apareceu. Lembro-me como se fosse hoje, era tão linda, olhos redondos, os seios que cabiam exatamente na palma da mão, belas polpas, eu sabia que não tinha dezoito completos, ainda mais com aquelas tranças, que a deixava com aparência juvenil, mas também não quis perguntar idade, é falta de educação, e foi ela que chegou ao balcão e perguntou: - ei, você é o Sr. Proxe Neto? Sim – respondi.
- Minha irmã disse para eu procurá-lo. Preciso de dinheiro. Nunca fiz isso antes, mas peço, para que me arranje algum trabalho. Certo, minha querida, você vai ver que não é difícil e poderá até gostar. Você vai começar imediatamente, pois um cliente já está esperando. Não fale sobre dinheiro com ele. Então, ele lhe pagará cem, e você me pagará quarenta. Ela ainda tentou relutar, mas eu disse: - esse é o valor do meu agenciamento, é pegar ou largar. Ela aceitou e baixou a cabeça.
Como não costumo dar aos clientes os nomes verdadeiros das minhas "meninas", vou escolher um nome para você. E por causa dessas tranças, eu disse a ela, seu nome artístico será Lolita, do filme do Kubrick, fica legal.
Liguei para o hóspede e informei que a garota havia chegado. Ele disse: - mande-a subir para o meu quarto, estou esperando.
Olhei para o relógio, 00:00h., e disse a ela: - pode subir, o elevador fica à esquerda, é no Aptº nº 333. Boa sorte!
Ela subiu. Contudo, às 00:30h., ela desceu cabisbaixa, chorando, ela me pagou os quarenta, e foi embora à pé. Em seguida, o hóspede me pagou o combinado e disse voltando para o quarto: - ela é muito novinha... Pouco me importava, tinha ganho uma boa gorjeta.
Contudo, pelo revés do destino, ou mesmo uma parafilia inconsciente, fez com que eu ligasse para ela no dia seguinte. Tomamos sorvete e ficamos juntos. Ela conseguiu um trabalho numa casa de família para cuidar de um casal de velhinhos.
Então, quando tudo parecia estar numa boa, de que seria para sempre, a minha memória começou a reviver aquela noite, o Aptº 333. Sabia que nunca mais veria aquele hóspede novamente, mas e a minha Lolita? Comecei a interrogá-la sobre aquela noite. Perguntei: - por que saiu do quarto tão rápido e chorando? Ela simplesmente chorava e não dizia nada sobre o que tinha acontecido lá dentro. Eu não conseguia apagar da memória aquele rosto tão puro, subindo para o quarto do cliente, e ter passado meia hora com ele, tempo para fazer muitas coisas, eu perguntava insistentemente: - você ainda era virgem? Ela ficava calada.
Foi então, que muito aborrecida, ela me ligou da casa dos velhinhos dizendo que nunca mais eu a veria novamente. Quando ela desligou o telefone senti as unhas da morte roçar meus braços e corri ao encontro dela, foi quando cheguei à porta da casa, os velhinhos estavam olhando o corpo estirado no chão, e a anciã disse: - ela caiu e desmaiou. E quando ela me viu, com olhos entreabertos, disse: - tomei veneno de ratos.
No apartamento nº 20, da U.T.I do hospital do município, o médico disse-me asperamente:
- Sr. Rufião, você sabia que ela não era maior de idade e que não tinha nenhum responsável nessa cidade. Reze muito para que ela não morra, caso contrário o senhor estará em maus lençóis, isso posso lhe afirmar com toda certeza.
- Ela é muito novinha... Eu disse ao médico, que me perguntou:
- Aprendeu a lição com esse trágico caso, Sr. Proxe Neto?
Hoje, penso, um pouco mais aliviado, após ela ter passado tanto tempo internada até ser desintoxicada, ter recebido alta e sumido, estranhamente como apareceu, com o habeas corpus em mãos, posso responder que aprendi sim, uma verdade, de que não devemos envolver sentimentos com negócios – isso jamais esquecerei.
F. Aldebaran
A iluminação destaca à esquerda do palco uma mesa com uma jarra d'água e um copo de vidro, e outra mesa, com um frasco de álcool e um vidro cheio de algodão, um par de luvas e máscaras descartáveis, seringas, ampolas e uma bacia d'água sobrepostas.
Um médico entra trazendo um homem, de aspecto sinistro, pálido, os lábios pretos, numa cadeira de rodas, preso numa camisa de força. E no centro do palco, ambos olham para a platéia, e o médico pergunta:
- É esta a sua janela preferida, Sr. F.?
Sr. F. com a voz grave e rouca, responde: - Sim, Dr. J., esta é a minha janela preferida.
O médico, olhando para a platéia pergunta: - O que lhe atrai nesta vista?
- A inatividade constante, Sr. F. responde.
O médico vai até uma das mesas atrás do Sr. F., as luzes iluminam somente o médico e o paciente, enquanto ele pega a jarra e enche o copo, vagarosamente, e diz: - É muito difícil compreender, um homem de vasta erudição, títulos acadêmicos, mundialmente consagrado pelas suas obras literárias, um homem dado ao estudo, como pôde? O Sr. F. responde:
"Para iludir minha desgraça, estudo.
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota).
Nos meus olhares fúnebres, carrego
A indiferença estúpida de um cego
E o ar indolente de um chinês idiota!".
O médico coloca o copo d' água na boca do paciente, enquanto ele bebe, diz: - Vejo que o senhor é um admirador do poeta Augusto dos Anjos. O Sr. F., entre goles d'água, diz: - Sim, gosto muito de poemas.
O médico colocando novamente o copo na boca do Sr. F. pergunta: - Qual era mesmo o nome dela?
- Srta. Z. – Ele responde.
O médico retorna à mesa para colocar o copo, e pergunta: - Mas, por que fez isso?
Sr. F. responde:
"Nesta sombria análise das cousas,
Corro. Arranco os cadáveres das lousas
E as suas partes podres examino...
Mas de repente, ouvindo um grande estrondo,
Na podridão daquele embrulho hediondo
Reconheço assombrado o meu Destino!"
O médico lava as mãos na bacia e pergunta: - Por que ela era linda e tão jovem? Sr. F. responde:
"A besta, que em mim dorme, acorda em berros;
Acorda, e após gritar a última injúria,
Chocalha os dentes com medonha fúria
Como se fosse o atrito de dois ferros!"
O médico diz: - Creio que o assunto que estou me referindo não tenha nada de poético. Sr. F. diz: - Já que o senhor pensa assim, creio que nunca irá me entender. O médico seca as mãos e coloca as luvas e diz: - Por favor, tente-me explicar. O Sr. F. diz: - O que fiz, na verdade, foi dar a minha maior prova de amor. Pois o meu objetivo foi imortalizá-la, num belíssimo poema. O médico num tom grave pergunta: - O senhor chama aquilo de prova de amor? Não houve nada de poético naquilo que fez. Sr. F. diz: - Claro que sim, Dr.J., eu fiz dela um poema lindo e imortal. O médico põe a máscara e começa preparar uma injeção. (Toca um réquiem). Sr. F. suspira e diz: - Há doutor...
"A carne dela estava fria.
Ao contrário, de quando corríamos à beira do rio Tocantins, em dias de sol.
Tentei me declarar, não ouviu, não respondeu.
Fui procurá-la: nas esquinas sombrias, nos becos; em
Festas solenes e nos braços de outro homem.
Tão sinistro, olhos ocultos seguiam-na
Entre as frias paredes dos conventos,
E nos quartos das prostitutas.
Os seus lábios cadavericamente roxeados sequer balbuciaram suas palavras,
Que antes, eram repletas de esplendor árcade, em noites de luar, na varanda de casa.
Não disse uma palavra e não mais dirá.
Pois os vermes já estavam se deliciando com a sua carniça.
Os seus olhos, fechados, não enxergaram e nem enxergarão o céu.
Como antes, quando admirada apontava me amostrando as estrelas e a lua.
Os seus olhos não foram testemunhas da segunda libidinosa defloração, de onde dois corpos entrelaçados palpitava o som de apenas um coração.
As suas mãos estavam gélidas e pálidas, da mesma forma de quando mentia.
Oh! Amor, não suportou tamanha dor.
A sina de abraçar junto ao peito a ígnea serpente do desatino.
E os micróbios tiveram o privilégio de comer a sua empírica beleza,
Deitada sobre finos lençóis, no jardim onde crescem as papoulas e as ervas que brotam da terra, entrelaçadas com os fios compridos de seus cabelos negros.
Sob aquela pedra, onde Eu a enterrei".
O médico segura a injeção, e afirma: - Creio que o senhor seja um caso irreversível.
O Sr. F. diz:
"Ao terminar este sentido poema
Onde vazei a minha dor suprema
Tenho os olhos em lágrimas imersos...
Rola-me na cabeça o cérebro oco.
Por ventura, meu Deus, estarei louco?!
Daqui por diante não farei mais versos".
O médico se aproxima com a injeção, e ameaçadoramente diz: - Chega de poemas por hoje, Sr.F.
(apagam-se as luzes)
Fim.
F. Aldebaran
Ao poeta Augusto dos Anjos - in memorian, requiescat in pace.
Diz a lenda, que lá pelos céus da Gávea existe um Urubu rubro-negro terrível, um carniceiro muito exigente. Por este motivo, tornou-se rei, raspador de moicano de menino danado.
Toda bambilândia foi comida e as flores-minences despetaladas cairam enfeitadas com pó de arroz, o Urubu devora sem piedade, não adianta dar dribles bonitinhos. Quando menos se espera, créu! – Já era, perdeu!
O porquinho sujo correu sem o mínimo fairplay, mas o Urubu rei o deixou engordar para comê-lo depois, noutra rodada.
Dizem:
- O Urubu rei abusou comer bacalhau, agora ele quer comer espinha de peixe!
- E o bacalhau?!
- Será o segundo a ser devorado, porque sempre vem depois do principal, é sempre vice.
E os mais exaltados perguntaram naquele dia:
- O que é que você quer comer Urubu rei?!
- Peixinho! Peixinho! Peixinho! – Ele disse.
O Urubu começou destroçar toda a arcoirizada e fez uma embaixadinha sinistra na trave da Vila Birubiru, lá pelas terras dos peixinhos com sabor de libertadores.
- Que delícia! - Disse o Urubu rei impiedoso.
E todos aprenderam a lição, de que nunca se deve chutar a macumba. E se quiser passar pelo Urubu, abaixe a cabeça e arrodeia! O Urubu rei nunca morre, porque ele é movido pela raça!
Em qualquer outro time do mundo um jogador pode conquistar fama e dinheiro, mas somente no Flamengo ele conquista a glória! Valeu R10!
F. Aldebaran
(Escritor)
Oh, minha amada Maya, se te digo sobre algo tão confidencial é porque te amo com a mesma intensidade que Erasmo de Rotterdam foi amado pela loucura.
Cheguei neste lugar sem dar um passo, sem pagar passagens e sem montar em nenhum animal, nenhum ventre me pariu. Oh, Maya! Limpe a terrível cera dos teus ouvidos! Antes que dela surjam bestas famintas saindo rasgando pela tua língua.
Minha querida Maya, não se pode chegar aqui na programação das próximas férias, fechando um pacote com uma agência de turismo ou com um guia. Não há Deus, nem Diabo, nem professores, bibliotecas, ou mestres. Pois aqui os pastores foram devorados pelos lobos no pasto onde brotam os cogumelos nos dejetos das vacas que foram servidas no jantar.
Aqui é solidão noctívaga, canibal. Oh, Maya! Por que tu te finges de tarântula e não se afasta da toca, nem mesmo para se alimentar? É a presença da presa, já, e mesmo ali, percebida pela forte vibração do medo na teia dos três modos da natureza humana?
Oh, Maya! Três cegos apalpam uma serpente no caminho. Um diz: - É um pedaço de corda! O outro pede: - Amarre-me com ela! E o terceiro, quando picado, grita: - Ai, meu senhor! É uma cobra! Ela picou a minha ignorância no escuro! Os três concordam, quando deveriam ter ficado com o velho xamã fumador de Ganja, que dormia um sono tranquilo de inverno.
Maya, oh, Maya! Oh, Maya! Para sempre, ou nunca, esta foi a promessa pronunciada pela boca molhada de concupiscência, quando estava entre as tuas pernas, ofegando e ardendo nas brasas da paixão.
Desejos ininterruptos, interrompidos por mais desejos... Oh, Maya, é verdade que não são necessárias as vestes, por isto tu andas completamente despida.
E sorri da mulher traída, que saiu da igrejinha e deu esmola e beijou um menino pobre na face. Oh, Maya, é essa bondade, que aclara, e que permite sentir os verdadeiros sabores da frustração indulgente, que eu não encontro.
Deixe-me aqui, minha querida, pois daqui posso observá-la tão atraente e tão jovem, e posso ver as tuas ancas caídas pelo tempo. Somente daqui, além dos três modos, além dos limites do mundo, eu posso enxergar, mesmo com os olhos fechados.
F. Aldebaran
(Escritor)
O caso a seguir me foi narrado pelo meu grande amigo servidor da justiça, o Sr. Francisco Júnior, que disse tê-lo ouvido do Dr. Alexsandro Martins Barros, secretário judicial.
Em plena revolução tecnológica, Riana, uma jovem pobre, como tantas, sonhava com a sua inclusão no mundo digital. Infelizmente, ela apenas subsistia como a maioria dos seres humanos, principalmente aqueles que vivem no terceiro e último mundo, habitados por latino-americanos, haitianos...
Portanto, ela vivia constantemente triste e sem internet, vendo ao seu redor o mundo alienado comprando compulsivamente os mais variados tipos e modelos de telefone celular, notebook, TV 3d...
E aquele desejo levou Riana a conhecer alguns amigos estranhos, que prometeram ajudá-la, mas para isso, ela precisaria desempenhar uma atividade, que a primeira vista, poderia lhe causar repulsa, no entanto, assim como o hábito faz o monge, ela poderia até gostar, e muito rapidamente, conseguiria o dinheiro para realizar o seu sonho.
Após uma demorada conversa clandestina e um aperto de mão, ela estava pronta e já sentada à mesa de um bar frequentado pela classe média alta. Minutos depois, um homem aproximou-se dela dizendo galanteios e esbanjando dinheiro, comprando a mais cara garrafa de uísque. E quando o homem foi ao banheiro, Riana, dissimuladamente, despejou uma droga no copo dele. Quando retornou, o homem bebeu e ficou muito animado com o pedido dela, que o chamou para irem a um lugar adequado à uma noite de prazeres.
Era loira ou morena? Paguei ou não a conta, e que horas eram, foram as primeiras dúvidas que perturbaram a cabeça daquele homem ao despertar sozinho numa banheira de quarto de motel. Poderia ter sido apenas mais um golpe "boa noite cinderela", mas o corpo dele, exaurido de forças, deu-lhe a certeza de que tinha tido uma noite de muito gozo.
O homem sorriu um riso sacana e disse para si mesmo: - Sou um pegador, garanhão! Eu sou foda!
Naquele mesmo instante, ele sentiu frio e viu que estava numa banheira de água vermelha, cheia de gelo. Tentou se levantar, mas não conseguiu, não sentia as pernas, já tomado pelo desespero, ele olhou para o espelho do quarto, onde estava escrito com batom "ligue para emergência!". Ao se esticar para pegar o celular à beira da banheira, o homem sentiu uma terrível dor nas costas, ele passou a mão e tocou num corte aberto, foi quando percebeu que haviam lhe retirado os rins.
Enquanto isso, do outro lado da cidade, Riana comprava um ipad.
F. Aldebaran
(Escritor)
Estava sozinho em casa, quando escutei uma voz chamando: - Simão! – O meu nome. Preocupou-me o fato de que poderia ser uma intimação, ou algum cobrador que já havia descoberto o meu novo endereço.
Lembrei das últimas coisas que comprei, e pensei até em me esconder, mas elaborei uma desculpa qualquer e fui atender, mas não havia ninguém. Olhei pelas frestas da janela, pela fechadura da porta da sala e da cozinha, ninguém.
Apesar de não acreditar em espíritos - desde quando me converti ao ateísmo -, senti medo. O que poderia ter sido? O que está acontecendo comigo? – Me perguntei. Ainda pela manhã, numa padaria lotada, escutei a voz chamar o meu nome: - Simão! Rapidamente me virei lançando uma interjeição: - Olá! Quando olhei, as pessoas estavam sérias, em silêncio, ninguém demonstrava já ter me visto antes. Mesmo assim, perguntei a um senhor baixinho de óculos: - Ei, o senhor me chamou?! Sem responder, ele pegou os pães e saiu apressadamente.
À noite, deitado na cama, me lembrava de quando tinha medo de dormir com as luzes apagadas. Mamãe pensava que era apenas um medo normal de criança. Acordei de madrugada, com a voz chamando o meu nome: - Simão!
Vi que a lâmpada do abajur sobre a cabeceira estava apagada. Mamãe tinha o costume de desligar o abajur depois que eu pegava no sono. Senti muito pavor no escuro. Gritei e sai do quarto correndo assustado, fui até a cozinha e peguei um copo de leite. Voltei para cama para tentar dormir.
Passada algumas horas, escutei a voz chamar o meu nome: - Simão! Pode ser que alguém tenha chamado e saído, ou eram duas pessoas passando na rua, uma com o nome igual ao meu. Pode ter sido um cobrador, e foi embora descontente. E se foi mesmo um espírito querendo me avisar algo?! Pode ser alguém falando bem ou mal de mim, ou armando uma emboscada, em algum lugar, perto ou distante.
Pode ser que eu esteja ficando louco.
Mas isso não me impede de ouvir, portanto, ouço.
Dizem que a morte chama pelo nome de cada um, e que não é bom respondê-la.
Ah... Preciso dormir – eu dizia para mim. Então, comecei a ouvir batidas na mesinha de cabeceira, meu coração disparou. E quando tive coragem de olhar, vi a mim mesmo sentado batendo com os dedos, e "ele" que era "Eu", disse para mim: - Simão!
Eu ouvi aquela voz que não era a minha, e fiquei arrepiado. A lâmpada apagou-se novamente.
Quis acreditar que não era ninguém ou que a pessoa que estava ali se foi. Seriam anjos de luz? Ou espíritos demoníacos a fim de assombrar, enganar e perturbar? Não acredito nisso. Mas infelizmente, nada no mundo depende do que eu acredite ou não para acontecer.
Procurei esquecer aquela noite terrível e fui trabalhar. No caminho, numa rua repleta de pedestres, escutei a voz chamar o meu nome: - Simão! Olhei para trás, e vi uma senhora desconfiada, perguntei: - Me chamou? O que deseja de mim?
A mulher correu, não parecia normal.
Posso ter confundido. Posso ter imaginado. Mas eu escutei uma voz chamar o meu nome em pensamento. Posso ter achado que não era ninguém, mas era alguém. Alguém chamou o meu nome em pensamento, novamente, outra vez... Posso ter imaginado, ou apenas o meu subconsciente cobrando alguma dívida. Acredite, ouça, isso acontece.
F. Aldebaran
(Escritor)
O iniciado caminha descalço pela estrada da renúncia, sobre as pedras dos desejos insatisfeitos. Sem tropeçar, de muitos males consegue se livrar, mas sem alegrias e paixões. Pisando no montinho de areia onde enterrada jazem as suas antigas tradições, os conflitos, a raiva e o desespero, o recorda o humano que não existe num pensamento superior através das dimensões.
Esta noite na região do umbral, o iniciado segue um homem que, às vezes, apanha insetos aqui e ali, como um Capelão. O bruxo está cercado de negras aranhas, desde há muito tempo quando era menino que riscava o cinco Salomão na cadeira da escola da professorinha cega.
A mente plasmou as aranhas e aquela existência, o bruxo deve ter aprendido a conviver com elas, que diziam ter uma tia chamada Maria, e no dia do Sagrado Coração, a aranha havia tecido a teia na cruz. O bruxo que encontrei cuidava carinhosamente e muito dedicado da última aranha velha. Ele sacudia a criatura inferior para excitar o desejo predador, a aranha é paciente e estrategista, a aranha vê a prosperidade na teia. A teia deu muito trabalho para fazer, paciência, é preciso ser minucioso na elaboração do desejo, lembrando dos mínimos detalhes.
Conhece a si mesmo?! Conhece a sua arte?!
A aranha tece a teia enquanto escrevo.
A Ooteca eclode e as crias órfãs se afastam desorientadas, pois aranha não afaga, prefere a solidão, ela é canibal, pois quem não come é comido.
Estou com tanta fome...
E se a cria insiste, é devorada. A aranha também é mãe que não cuida dos filhos. A aranha sabe o que fazer, como fazer, quando fazer, e quando não fazer, o bruxo também. O bruxo acredita nele mesmo, e na divindade. A aranha é habilidosa, e o bruxo acredita na abundância do Universo. A aranha observa da toca subconsciente se há vontade. O bruxo mantém a boca fechada antes do trabalho. O bruxo fala muito, para aprender a manter a boca fechada. A aranha tem coragem de mudar as circunstâncias. A ecdise, disse o bruxo: - é a "mudança de acordo com a vontade", para crescer na sua época, a aranha precisa sair do corpo, despindo-o como uma velha roupa descartada, a exúvia. Chega de cães, gatos, pássaros e tartarugas! É tempo de criar aranhas. O bruxo disse, esta noite, na região do umbral.
F. Aldebaran
(Escritor)




F. Aldebaran, escritor brasileiro, nasceu no dia 26 de maio de 1980 na
cidade do Rio de Janeiro. Filho de Maria da Glória Fonseca dos Santos e de
Pedro Honorato dos Santos.
Radicado em Imperatriz/MA, vive com Zélia Nuit (esposa) e Radharani Aldebaran (filha).
É autor dos livros: O Poder da Vontade; O Drama de Uma Mulher Indecisa na Alcova; O Mistério da Tarântula; e Calâmitas - A Odisseia da Luxúria. Atualmente trabalha na criação das obras provisoriamente intituladas: Ubu; e A Casa dos Sete Ventos. Cursou Letras na Universidade Estadual do Maranhão, é professor, servidor do Poder Judiciário – e sindicalizado pelo
Sindjus/MA. Escreve para os jornais: O Progresso, Correio Popular e Tribuna do Tocantins. É estudante de psicanálise clínica, pesquisador de religião comparada, bonsaísta, pesquisador etnobotânico, e micetólogo autodidata. Os seus textos abordam temas que parecem polêmicos e obscuros, ao leitor incauto, no entanto, pode se observar através de sua escrita um estilo
próprio e ousado de fazer textos "psico-oníricos"; sobre espiritualidade, política, delírios místicos, sexualidade, crises existenciais, sobre sonhos que parecem indecifráveis e enigmáticos, mas que apenas revelam sentimentos
profundos e inconscientes, no eterno dilema do ser individual e social.
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Cidade: Imperatriz, Maranhão
27° C(Nublado) |
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